Tuesday, March 17, 2020
O início do classicismo em meados do século XVIII
Como um marco geral para historiadores da música, o ano da morte de J. S. Bach, 1750, marca o fim do barroco e o começo do período clássico na música de concerto europeia. Nessa data, porém, o estilo de Bach, Vivaldi e Handel já estava bastante fora de moda. Décadas antes, já germinava na Europa a semente do período clássico, com o rococó, e o estabelecimento de gêneros e práticas musicais que continuariam pelos próximos séculos.
Em termos de estilo composicional, a música do classicismo se caracterizou pela preocupação com simplicidade, beleza e forma da música, que deveria ser harmoniosa e proporcional. A forma sonata, termo que ainda remete fortemente ao classicismo, evoluiu das expansões e elaborações das formas binárias, num contexto da maior importância dada a padrões previsíveis, e de muitas formas de dança ou peças em forma de improvisos irem aos poucos "saindo de moda" ao longo da transição do barroco para o clássico. Também houveram expansões no concerto e nas cadências. A forma sonata foi aos poucos entrando nos ritornellos do concerto, e as cadências, antes improvisadas, passaram a ser tradicionalmente escritas. Além disso, o termo sonata, que no barroco remeteu à música de câmara escrita para a formação dita "trio-sonata", cada vez mais intitulou peças para outras formações de câmara, inclusive piano solo. As peças para pequenos grupos, feitas para amadores, e tratados e métodos para a aprendizagem de instrumento e de estilo foram prolíficas nesse período, embora em grande parte esses documentos estejam esquecidos hoje em dia. Alguns métodos para violino que sobrevivem são os tratados pedagógicos de Geminiani e o de Leopold Mozart, escritos no meio do século XVIII. Apesar de o violino e sua técnica terem sofrido alterações importantes desde então, muitos dos princípios técnicos e disciplinares desses métodos ainda se aplicam ao estudante moderno.
A segunda metade do século XVIII viu o desabrochar da sinfonia, um gênero que tomou enorme importância nos dois séculos seguintes, e com ele o estabelecimento da orquestra sinfônica como formação perene, estruturando uma instituição cultural que é relevante até nossos dias. As orquestras do período barroco eram majoritariamente compostas por cordas, um ou outro instrumento de sopro, e um teclado-regente no contínuo; porém, com o melhoramento e criação de novos instrumentos de sopro, a orquestra foi aumentando, o que mais tarde culminou na perda do teclado e na adição do maestro. As cores da nova orquestra sinfônica clássica, com bons instrumentos de sopro de madeira, metais, e tímpano, além das cordas da família do violino e do contrabaixo, favoreceu a exploração de cores dinâmicas e de orquestração, se tornando um meio muito rico de expressão e um favorito dos grandes compositores, seja nas aberturas de ópera, balés, concertos com solistas, ou sinfonias. Talvez o gênero mais icônico da música europeia, a sinfonia data de antes do fim "oficial" do barroco. A primeira sinfonia com os contornos formais que vemos em Haydn e Beethoven, a Sinfonia em Fá de G. B. Sammartini, foi publicada em torno de 1740. C. P. E. Bach, um dos filhos mais velhos de J. S. Bach, já era um renomado compositor de música para orquestra na época da morte de seu pai. Outro nome importante da época é Johann Stamitz, que além de escrever sinfonias, criou a Orquestra de Mannheim, famosa por sua técnica e um uso de dinâmicas impressionante. J. Haydn, o mais prolífico sinfonista da história, compôs todas as suas sinfonias antes da chegada do ano de 1800, assim como W. A. Mozart.
Em suma, o início do classicismo se deu gradativamente através do fim do barroco, guiado por melhoramentos nos instrumentos e a mudanças na estrutura social das cidades que geraram, ao longo de décadas, um aumento do público para a música e também da procura por professores e partituras para instrumentistas amadores. A crescente riqueza e abertura da Europa no século XVIII favorecia o pensamento cosmopolita e humanista do classicismo, e ele tardou bem menos a se espalhar do que parecem sugerir os frios blocos nas linhas do tempo dos livros didáticos.
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