Por agora faz um ano que me mudei para esse apê da Cardeal da Silva. Queria escrever uma ode para no futuro ler e me lembrar com ternura dessa época.
Minha vizinhança tem uma jaqueira de uns 30 metros. Nessa jaqueira vivem micos, cigarras, passarinhos. Morcegos também. Às vezes fazem barulho, outras vezes, parece que somem. Ao pé da jaqueira, no terreno baldio, tem alguns mamoeiros, que eu gosto de pensar que nasceram lá espontaneamente. Gosto também de pensar que nasceram de uma rotina lânguida de algum vizinho descuidado que come fruta na sacada e joga as sementes no terreno pra não precisar caminhar até a lixeira da cozinha.
Minha vizinhança tem alguém que está aprendendo a tocar flauta. Desde que eu vim morar aqui, há um ano, ela (ou ele) já progrediu muito. Não só toca melhor como estuda melhor, tem mais paciência, mais esmero na resolução dos problemas. Sinto orgulho por tabela. Junto com ela eu ouvi tocar uma vez um saxofone. O saxofonista não era tão dedicado e nunca mais soou; desistiu de tocar, ou quem sabe se mudou. Ou quem sabe era um primo do interior que só veio ficar uma temporada.
Minha vizinhança tem também alguém que aprende piano. Ela começou faz pouco tempo, mas é muito dedicada - toda noite o piano soa, por pelo menos uns 30 minutos, com musiquinhas simples. Começou com uma mão só, agora já toca duas linhas. Também é um estudo muito compenetrado que me dá vontade de estudar, eu mesma. Gosto de pensar que é um adulto que sempre sonhou em aprender piano e que finalmente decidiu se arriscar.
Minha vizinhança tem dois cachorros que a Mel ama, e uma cachorra que ela não pode nem ver. Toda semana nos esbarramos pelo menos uma vez. Um dos cachorros que Mel ama tem medo dela, e quando vê ela vindo ao longe fica paralisado. A cachorra que Mel não gosta também se chama Mel. Minha vizinhança tem umas quatro cachorras chamadas Mel, até onde eu sei.
Minha vizinhança tem um apartamento em que moram um casal de senhores. A quase qualquer hora do dia, um dos dois estará sentado na janela, observando o movimento. Às vezes eu acho um pouco triste, às vezes acho engraçado. No mesmo prédio tem uma criança que às vezes fica olhando pela janela também. Fico pensando se a criança reporta à mãe e depois os vizinhos comentam entre si pelos corredores.
Minha vizinhança tem uma brisa que passa ao longo da janela. Nessa época do ano em que o sol não bate, é ótimo deixar o janelão escancarado. O vento não chega a refrescar a casa toda, porque entra enviesado; mas quando se senta no lugar do meio do sofá, acontece um equilíbrio perfeito entre o vento do ventilador e o vento da rua, que não fica quente nem irritante.
Ouço pouca coisa fora do ordinário na minha vizinhança. Fico pensando se o isolamento acústico dos apartamentos é bom, ou se realmente eu sou uma das vizinhas que faz mais barulhos. Aqui em casa tem barulho de instrumento, de transas, de podcast e música alta, de eu falando sozinha, de aula, de aglomeração... Mas tem muito silêncio também. Como agora, quando escrevo isso enquanto escuto as cigarras e grilos na jaqueira, alguma brincadeira de criança ao longe, o assoviar suave do vento, o piano sendo praticado, e a respiração do sono profundo da Mel.
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