Wednesday, July 25, 2018

Como tornar-me quem eu sou


Com quase 30 anos, ainda tenho problemas entendendo minha "posição" no mundo. Ou, melhor dizendo, aceitando uma posição. Isso é um problema porque eu posso ver e analisar muito claramente, de uma forma quase obsessiva, as caixinhas a que cada pessoa pertence.

Eu cresci sendo vocal e assertiva, seja através da palavra, seja através de atitudes e símbolos. Porém, quando comecei minha vida acadêmica, não sei por quê, decidi que devia ser uma mulher séria. Assim, durante a faculdade e pós graduação, e talvez por causa do trabalho como professora que eu fiz nesses anos, eu adotei uma postura cada vez mais feminina, cuidadora, delicada, "padrão". Muito embora eu não me veja assim internamente, é assim que as pessoas parecem me ver - e eu não lutei para contradizê-las, pois assim me era conveniente. Não foi um processo inteiramente consciente, mas uma adaptação a um contexto de mudança constante. Hoje, tendo outro foco e mais tempo para refletir, percebo conflitos na minha percepção de mim mesma que estavam há muito adormecidos.

Sei bem que pessoas são complexas e ninguém realmente cabe em todas as caixinhas. Mas saber disso não ajuda de fato a melhorar esse desconforto que venho sentindo mais profundamente em relação à minha identidade, principalmente em relação ao aspecto masculino versus feminino. Forçosamente, aprendi a não demostrar estranhamento quando se referencia minha expressão feminina - o "quão atraente" eu sou, especialmente, mas também outras características esteriotipicamente femininas que eu demonstro. Porém, não me sinto confortável quando essas características são apontadas. Pra deixar bem claro, não estou falando de situações de assédio; o caso é que simplesmente não me identifico com a feminilidade. Não sou transgênero, mas sinto que nunca vou me adaptar a ser mulher. Acho que o que eu quero dizer é - não quero ser homem, mas quero ser mais do que mulher. Ou (possivelmente) quero que as mulheres sejam mais do que são aos olhos da sociedade. Olhando para dentro vejo dois personagens conflitantes - um deles esperançoso e empenhado pela (r)evolução feminista; o outro, querendo preguiçosamente seguir o fluxo.

Meu lado egocêntrico é tipo a Rain Dove falando sobre "capitalismo de gênero" 


Meio de julho, durante a minha viagem, raspei o cabelo dos lados da cabeça, o dito sideshave. Fiz inspirada na Lagertha de Vikings (que faz trancinhas, eu sei, mas quem me conhece sabe que eu jamais teria saco pra viver fazendo um penteado tão minucioso). Foi interessante perceber, na minha volta para casa, que o olhar das pessoas mudou, ainda que ligeiramente. Tive vagas lembranças da forma que eu era encarada na adolescência, quando usava roupas e cabelos fora do padrão. As pessoas não me olhavam mais com doçura, mas com uma expressão mais neutra, alguns até com um certo espanto. Me senti mais vulnerável, mas ao mesmo tempo mais poderosa. Curti. Agora acho que tenho que trilhar esse caminho aí, e atualizar as definições de mim.

Essa reavaliação que preciso fazer para revitalizar a "mulher séria" que artificialmente me tornei talvez passe por um resgate de quem eu já fui quando criança, quando essas questões de reputação não eram importantes, e quando adolescente quando eu era mais corajosa. Há que equilibrar essa essência passada com as coisas boas que aprendi desde então - ou quem eu sou agora - e também olhar com mais empatia para as pessoas que convivo, e passar as mensagens que eu realmente quero passar - ou quem eu quero me tornar.

Acredito que meu mal estar em relação a essa falta de controle sobre como os outros vão me ver, caso eu não me encaixe mais em certas caixinhas, é de que vou ter problemas *convencendo* as pessoas do meu lado feminino (o lado masculino já é problemático por causa dos genitais e coisa e tal). Estar fora das caixinhas gera trabalho para os outros; o trabalho de interpretar sinais e signos para um contexto específico, sem poder generalizar ou usar de generalizações. Muita gente não gosta de ter esse tipo de trabalho, e eu acredito que os preconceitos vem justamente daí, pelo menos em parte. Quem sabe quais e quantas barreiras podem surgir?

Já disse Vihart: ser queer dá tanto trabalho, por quê alguém faria isso? Porque para ela aquilo é realmente importante.


A parte difícil de absorver é que essa imagem "neutra" que eu me deixei mostrar também traz julgamentos, e com eles também diminuem as potencialidades de conexões e produções verdadeiras. Enfim, vamos à jornada.



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